Artista de carreira internacional, Marcelo Moscheta reencontra obra em Maringá
Trabalho integra acervo da Galeria Cidade Aruna e teve seu processo de criação revisitado pelo artista brasileiro, que vive em Coimbra, Portugal, onde realiza doutorado em Arte
Depois de quase três décadas dedicadas à investigação de territórios, paisagens, memória e matéria, o artista brasileiro Marcelo Moscheta reencontrou, em Maringá, no Paraná, uma obra de sua autoria que integra o acervo de artes da Galeria Cidade Aruna. Há cinco anos, Moscheta vive em Coimbra, Portugal, onde realiza doutorado em Arte Contemporânea. O encontro aconteceu durante uma passagem dele pela cidade onde viveu por alguns anos, e permitiu que ele revisitasse, diante do público, as pesquisas que deram origem à obra.
Ao longo de sua trajetória, Moscheta construiu uma carreira nacional e internacional marcada pela investigação dos lugares por onde passou. Desenvolveu projetos no Ártico, no deserto do Atacama, às margens do Rio Tietê e em Portugal. Sua produção transita por diferentes linguagens e incorpora imagens, instalações e materiais coletados durante pesquisas de campo para investigar a presença humana no território e os modos de medir, representar e transformar o mundo.
Criada em pedra litográfica e grafite, a obra em Maringá integra a Série Memória Gráfica, criada em 2020, e faz parte do acervo da Galeria Cidade Aruna desde a inauguração do espaço, em 2024. Com curadoria de Rafaela Tasca, a coleção é a primeira iniciativa do ecossistema urbano dedicada às artes visuais e reúne trabalhos de Paolo Ridolfi, Marcelo Moscheta, Roberta Stubs, Amanda Fahur, Cristina Agostinho, Annelise Nani, Glicínia Setenareski e o Coletivo Kókir.
“Essa primeira coleção foi concebida como um gesto inaugural, reunindo oito artistas cujas trajetórias se relacionam com a cidade. A seleção propõe um diálogo entre diferentes poéticas e o contexto local, estabelecendo um primeiro campo de aproximação entre esse ecossistema e as artes visuais, explica Rafaela.
Sobre a presença de Moscheta na coleção, a curadora destaca a relevância de sua produção. “Marcelo Moscheta é uma referência na arte contemporânea brasileira, com uma produção marcada pelo rigor de sua investigação poética. Sua presença na coleção abre possibilidades de novos diálogos com o território”, completa.
Quando o lugar conduz a obra
A relação com o território não aparece apenas como tema na produção de Moscheta. Ela é parte do próprio método de criação. Para o artista, cada projeto estabelece um ponto de partida, mas seus desdobramentos são determinados pela experiência direta com o lugar.
“O que encontramos durante o percurso interfere diretamente nas decisões que tomamos. É preciso uma escuta atenta daquilo que está se fazendo. O que vai determinar o que vai acontecer a partir dali é a minha relação com a natureza, com o espaço, com aquilo que eu estou vivendo, com aquilo que eu estou coletando”, comparou o artista.
Essa relação entre paisagem e criação também esteve no talk ministrado pelo artista em Maringá, intitulado “Uma paisagem, um par de botas e muitas pedras – Processos criativos em estreita relação com o lugar”. Ao compartilhar experiências de sua prática, ele apresentou uma forma de criação construída a partir da observação, da caminhada e da pesquisa.

Ele lembra que compartilhar esses caminhos também é uma forma de aproximar o público da arte. “Eu acredito muito que o artista precisa ser generoso com o público. Existe um tipo de chave de acesso que acho que o artista pode dar”, afirmou Moscheta.
O encontro na Galeria Cidade Aruna permitiu que visitantes conhecessem o processo que antecedeu a obra e voltassem o olhar para a peça a partir de outras referências.
Para o artista Paolo Ridolfi, que também integra a coleção, ouvir Moscheta trouxe uma dimensão diferente para o trabalho. “A gente consegue ter a dimensão de tudo o que aconteceu antes dessa obra chegar até aqui. Existe uma coerência que atravessa a trajetória dele e isso eu acho muito bom”, afirmou Ridolfi.
A arquiteta e urbanista Ninha Chiozzini também destacou a mudança de percepção provocada pelo encontro. “Depois de escutar de onde veio a ideia e como ele formatou isso, a gente entende com muito mais profundidade a visão do artista. Todo arquiteto tem que beber nessa fonte da arte, onde conseguimos expandir nosso pensamento e ampliar nossas referências”, analisou Ninha.
Já o historiador e pesquisador Miguel Fernando chamou atenção para a capacidade do trabalho de provocar reflexões sobre a relação entre natureza, sociedade e ser humano. “É algo que nos provoca não só reflexão, mas um sentimento de busca por aquilo que a gente não viveu. É um caminhar em busca de experiências”, conclui o historiador.
O reencontro de Marcelo Moscheta com sua obra na Galeria Cidade Aruna, em Maringá, evidencia uma característica importante de sua produção: o trabalho não termina quando deixa o ateliê. Ao retornar ao lugar onde uma peça está, o artista encontra novas camadas de sua pesquisa, enquanto o público passa a enxergá-la a partir das histórias e escolhas que a constituíram. A passagem pela cidade revelou os caminhos de pesquisa, escuta e descoberta que antecedem a criação e mostrou que conhecer esses percursos também transforma o olhar sobre a obra — aproximando arte, memória e cidade.
Uma nova obra de Moscheta estará presente no Atma Cidade Aruna, na qual o artista propõe um conjunto imagético a partir de desenhos em grafite de espécies nativas ainda presentes no Parque do Ingá e no Horto Florestal. Inteiras ou em pormenores, essas árvores rearranjadas revelam a visualidade do território em seu bioma originário: a Mata Atlântica ainda remanescente em Maringá. This is
Sobre o artista
Marcelo Moscheta nasceu em São José do Rio Preto (SP) e cresceu em Maringá (PR), onde seu pai foi professor de Botânica na UEM. Em sua prática artística, investiga relações entre arte e ciência, cultura e natureza, abordando territorialidade, memória, imagem e paisagem. Realizou exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior, participando de bienais e programas institucionais. Sua mais recente individual, Traslados, foi realizada no Museu Internacional de Escultura Contemporânea de Santo Tirso (MIEC), em Portugal, estabelecendo relações com o território e suas camadas ancestrais. Recebeu prêmios e bolsas de pesquisa, entre eles o Pollock-Krasner Foundation Grant (2017). Atualmente vive em Portugal, onde realiza doutorado em Arte Contemporânea na Universidade de Coimbra.






